sábado, 15 de setembro de 2007

Mundial de Rugby


No dia em que a noss selecção enfrenta a poderosa Nova Zelândia, recordo aqui o dia em que estes rapazes mostraram a garra, a alma e a força da prole de Viriato. Apesar de não perceber o jogo e não sendo apreciadora, emocionei-me ao ver o hino cantado com tanto sentimento. Vamos ver a reacção perante a Haka! Deixo aqui este artigo do Expresso que exprime o que senti e que está maravilhosamente escrito:


Mundial de Râguebi
Esplendor na relva
Rui Cardoso, enviado a França


O momento do jogo? Foi quando cantámos o hino!" Foi nestes termos que Vasco Uva, capitão da equipa portuguesa e que acabara de ser nomeado melhor jogador em campo, resumiu o encontro de abertura, domingo à tarde, onde a selecção, embora perdendo com a Escócia por 56-10, "deixou a pele no campo". Num país onde o melhor que se pode esperar para um jogo de râguebi são mil espectadores, ter um estádio com 35 mil pessoas, quase metade das quais a cantar "A Portuguesa" a plenos pulmões, é um momento único.
"Tudo o que se gritava da bancada, nós ouvíamos lá em baixo. E isso deu-nos sempre muita força", explicava no fim do jogo, o pilar, Rui Cordeiro. Aliás, gritava-se tanto "que nem sempre conseguíamos usar os nossos códigos para as jogadas porque não nos ouvíamos bem uns aos outros", sublinhava, à saída do estádio, o ponta, Pedro Carvalho, ainda sorridente com o feito de ter marcado o primeiro ensaio da selecção lusa numa fase final do mundial.
Portugueses a apoiar a selecção foi coisa que não faltou. Se, nas noites que antecederam o jogo, o essencial da animação no centro de Saint Étienne, da praça Jean Jaurés à estação e à praça Chavanelle, coube à comunidade portuguesa local (cerca de três mil pessoas), no domingo a falange de apoio engrossou a olhos vistos, com muitos milhares de portugueses a convergirem para o estádio Geoffroy Guichard. Estratégias para a viagem havia muitas: ir e vir em voos "low cost" para Genebra ou para Lyon; ou andar o tempo todo atrás da equipa, recorrendo aos mais diversos truques, desde os jogadores do Belas que vão acampando onde podem, até grupos de fãs muito jovens que se deslocam de "roulotte" puxada penosamente por um carro "que não passa dos 100 km/h". Toda esta gente está, de perto ou de longe, ligada ao râguebi. São antigos, actuais, ou futuros jogadores e suas famílias, formando clãs que não existem em nenhuma outra modalidade. "Você tem que perceber uma coisa", explicava um dos elementos de um grupo que integrava gente de todas as idades, de Agronomia e do Belenenses, fardado a rigor, com camisolas vermelhas e barretes de campino. "Enquanto o futebol é um jogo de cavalheiros jogado por cavalgaduras, o râguebi é um jogo de brutos jogado por cavalheiros". É por isso, concluía ele, "que os meus filhos andam lá, porque é uma escola de princípios".
Para a comunidade portuguesa local, este tipo de considerações era relativamente irrelevante. Estavam ali para apoiar Portugal, fosse em futebol, em râguebi ou noutra coisa qualquer. Enquanto os recém-chegados estavam equipados e pintados a rigor, muitos, à evidência, vindos de Cascais, da Foz do Douro, ou do Restelo, os locais passeavam-se de fato de treino do Benfica ou de camisolas da selecção de futebol e trocavam impressões em francês fluente, entrecortado por um ou outro palavrão sonante e distintamente pronunciado que tirava quaisquer dúvidas sobre a nacionalidade respectiva.
Cá fora, a "guerra" com os escoceses foi sempre amigável. Se os antigos gauleses só temiam que o céu desabasse sobre eles, os descendentes dos indómitos clãs das Highlands não mostram medo a ninguém e o seu único terror é que a cerveja seque nos barris. Um grupo de apoiantes lusos, integrado sobretudo por familiares de jogadores, "nacionalizou" uma banda francesa e improvisou a festa na entrada principal do estádio. Mas os escoceses não tardaram em contra-atacar, desfilando atrás de um grupo fardado a rigor, com "kilts" e capas, e tocando "Scotland the Brave", com as gaitas-de-foles e tambores naquele timbre inconfundível, que faz arrepiar até o mais indiferente. Para os emigrantes, as saias dos escoceses eram motívio de fascínio. Um destes, jovem e já bem bebido, resolveu levantar a ponta de um "kilt" para ver se era verdade o que constava. Um traseiro peludo, exposto aos aplausos da multidão, provou que a tradição ainda é o que era. Um vizinho escocês, mais calmeirão, emborcando a milésima cerveja, perguntava aos circunstantes apontando para o seu próprio "kilt": "Do you want to see some more"? (que é como quem diz, querem ver mais disto...)
No interior do estádio, o ambiente era extraordinário. Tão efusivo como num grande jogo de futebol mas sem agressividade nem provocação. Nem seriam precisas as instruções da federação internacional para ninguém assobiar o hino contrário, nem, muito menos, os adversários ou os árbitro. E, aos 28 minutos, quando Pedro Carvalho consegue, em esforço, furar a linha defensiva contrária e passar a linha de fundo, marcando os primeiros cinco pontos para Portugal, todo o estádio aplaudiu de pé. Duarte Cardoso Pinto converteu e voltaria a converter um livre aos postes mais tarde, consolidando os dez pontos lusos. Tão deslumbrados ficaram os portugueses, que consentiram, logo a seguir, um ensaio aos contrários. A segunda parte deveria ter sido jogada ao som da Heróica de Beethoven, pois os portugueses lutaram de igual para igual durante 17 minutos e Carvalho voltou a pontuar numa arrancada fabulosa, depois invalidada por fora-de-jogo. Foi a única altura em que se ouviu uma assobiadela monumental ao árbitro, prontamente dissuadida pelos adeptos mais profissionais que explicavam aos exaltados que "no râguebi respeita-se toda a gente, árbitro incluído...". Depois, foi a quebra física, com os escoceses, onde se destacava o magnífico Rory Lamont, a marcarem mais 28 pontos sem resposta.
No final, os jogadores dos dois lados aplaudiram-se e os portugueses ainda com forças para isso foram aos dois topos do estádio agradecer os aplausos e ser abraçados pelos adeptos. Orgulhosos dos seus compatriotas, um grupo de apoiantes jovens exibia um cartaz em inglês, explicando que se tratava de uma verdadeira equipa profissional: o nº 1 é veterinário, o nº 2 empresário, o nº 7 publicitário, etc, etc. Na conferência de imprensa, o seleccionador Tomaz Morais explicou que, "perante o adversário mais forte de sempre", Portugal tinha feito, "o melhor jogo de todos os tempos".
À noite, na praça Jean Jaurés, um escocês, fardado a rigor, dizia ao jornalista do Expresso. "They played very well. You should be proud of them" (que é como quem diz, "grande equipa, bem se podem orgulhar deles"). A multidão de diversas nacionalidades que fazia a festa por ali não podia estar mais de acordo.

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