quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Os Lobos, outra vez

Lobos enfrentam o mais difícil dos desafios
Alma até Toulouse
A selecção portuguesa volta a mostrar garra contra a Nova Zelândia, embora perdendo por 108-13. O objectivo maior - não deixar o adversário marcar mais de 100 pontos - chegou a estar à vista, sendo atingidos os secundários que era jogar e marcar pelo menos um ensaio.
Rui Cardoso (textos), Jorge Simão (fotos)
19:20 Sábado, 15 de Set de 2007

Antes do jogo com a Nova Zelândia corria nos bastidores da comitiva portuguesa a seguinte piada: no fim do jogo é que eles vão perceber o verdadeiro significado de "all blacks": é todos negros de tanta pancada. Não foi exactamente assim. Os portugueses mostraram um bom nível físico e registaram tantas lesões como os seus opositores: uma para cada lado, obrigando, às substituições de Marcelo d Orey (tendão de aquiles) e Brendon Leonard.
De resto, quer nos jogos de preparação que antecederam o Mundial, quer na partida de abertura com a Escócia, a regra foram as lesões contrárias e a excepção das portuguesas. Mesmo assim, um jogo contra os melhores do mundo deixa sempre marcas, conforme reconheceu no final, o seleccionador nacional, Tomaz Morais: "Há pequenas lesões a recuperar até ao jogo com a Itália. Vamos rodar e gerir o plantel, de forma a estarmos na máxima força em Toulouse, contra a Roménia (dia 25)". Se o corpo inspira relativamente poucas preocupações, a alma, essa recomenda-se. No final, os jogadores deram a volta ao estádio, aplaudidos de pé pelos numerosos portugueses mas, também, pelos restantes espectadores. Houve "terceira parte" no balneário, ou seja, beberam-se umas cervejas e trocaram-se camisolas com os adversários e dois responsáveis do torneio, incluindo Sid Miller, presidente da federação mundial (IRB), foram lá abaixo felicitar os portugueses. Mesmo assim, no final do encontro o talonador, João Correia, não estava totalmente satisfeito: "Ficámos aquém de um dos nossos objectivos, o de perder por menos de cem pontos. E errámos nas placagens, consentido alguns ensaios fáceis".
O médio de abertura, Gonçalo Malheiro, autor do pontapé de ressalto (drop) de que resultaram os primeiros três pontos contra a Nova Zelândia da história do râguebi português (e também deste Mundial), estava, naturalmente, contente e só espera "voltar a poder defrontá-los". Para ele, "o hino foi novamente fantástico e o haka um momento único". Mas o mais requisitado pelos jornalistas estrangeiros foi o pilar, Rui Cordeiro, autor do único ensaio português, logo no recomeço da segunda parte. Foi um lance em esforço, confuso, em cima da linha de fundo e com muita gente envolvida, com o árbitro a demorar quase dois minutos a validar o lance. "Eu nunca tive dúvidas de que o ensaio era válido", dizia sorridente aos media franceses e anglo-saxónicos. Que nunca mais o largaram quando souberam que era veterinário de profissão e atleta nas horas livres. Uma última palavra para a eficiência do médio de abertura, Duarte Cardoso Pinto, que converteu com sucesso o ensaio português (de um ângulo difícil e com muito vento) e um pontapé livre de muito longe, adicionando, assim, três pontos ao resultado luso.
Tal como contra a Escócia, o 16º jogador, ou seja, o público esteve em pleno. Imaginação parece ser coisa que não falta aos fãs portugueses. Surgiram chapéus figurando cabeças peludas de lobos cheias de dentes e cartazes com os dizeres mais diversos. Um grupo franco-português ostentava vários cartões bilingues com mimos tais como "o fado é mais bonito que a haka" ou "até os comemos". Tudo o que fosse verde e vermelho, servia para compor a vestimenta, incluindo os barretes de campino. Desta vez os apoiantes de alguns dos jogadores traziam adereços específicos. Os de Rui Cordeiro batiam os restantes aos pontos, com leitões de peluche na cabeça, figurando os bichos com que o seu ídolo costuma lidar no matadouro.
Na falange de apoio que fez a festa à entrada do estádio, destacavam-se os familiares dos jogadores, nomeadamente o clã Uva, e a equipa de râguebi feminino do Benfica. Esta, chegou ao requinte de elevar uma das jogadoras no ar, como se estivessem a saltar para uma "touche". Entreabrindo aos leitores os bastidores da reportagem seguiu-se o seguinte diálogo:
- Nem sabia que havia raparigas a jogar râguebi...
- Há, pois há. E nós fomos campeãs nacionais!
Catarina Ferreira, capitã da equipa do Glorioso, era mais que contida nos objectivos para o jogo: "Marcar um ensaio e sofrer o menos pontos possível". Só? "É que eles não são humanos. Cada perna deles chega-me à altura do peito". Mas concordava "a 101%" com a declaração do pilar André Silva aos jornais franceses: "C est une petite équipe avec un grand coeur" (somos uma equipa pequena mas com um grande coração). Voltando à temática do râguebi no feminino, ficou a saber-se que na Nova Zelândia, até a selecção de mulheres é temível. "Não sei se não ganhavam à nossa selecção", dizia Filipa Jales, também atleta do Benfica, logo depois rindo-se e corrigindo: "Não escreva isso, senão o Tomaz fica furioso comigo..."
Tal como numa boa refeição, o prato mais saboroso ficou guardado para o fim: no final do jogo, numa brincadeira entre suplentes das duas equipas, houve um mini-desafio de futebol. Aí, os Lobos não deram hipóteses aos All Blacks: arrumaram-nos por 3-1...
In: http://expresso.clix.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/117483







Sem comentários: